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quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Desabafo de uma jornalista

Deve ser engano. Não é possível. Milhares de profissões são reconhecidas pela sua contribuição à sociedade, menos a minha. Ser jornalista, hoje em dia, não tem valor algum. Pelo menos para as autoridades que pretendem votar a favor da desregulamentação da profissão. Se aprovado pelo STF o recurso extraordinário, que isenta o diploma do profissional de jornalismo, qualquer um que nem tenha concluído o Ensino Fundamental, por exemplo, poderá exercer a profissão.

 Como isso entristece, irrita e causa indignação. Nenhum outro profissional faz idéia de quão prejudicial este recurso é para o jornalista. Quer dizer que depois de 70 anos de regulamentação da profissão e mais de 40 anos de criação dos Cursos de Jornalismo não valerá de nada os esforços para manter níveis satisfatórios de qualidade à profissão? Quanta energia desperdiçada! Quanto desgosto!

 É revoltante saber que pessoas sem formação nem ética estarão aos montes nas redações, se esta medida for aprovada; como se não bastassem, hoje, os apadrinhados encherem os corredores dos veículos de comunicação.

 Imagine se essa medida, se aprovada, fosse aplicada às demais profissões. Médicos, dentistas, advogados, engenheiros, arquitetos, professores e outros tantos profissionais não precisariam de diploma para exercer suas funções. Seria um verdadeiro caos. Pessoas multiladas, deformadas, desdentadas, pontes, casas e prédios desabando, pessoas analfabetas ...seria um desastre. E por que pensar que a profissão de jornalista é menos nobre do que as demais? Seria pedir muito a mesma consideração?

 Caso seja aprovado este recurso, o nivelamento do jornalista será muito baixo. E em vez de ajudar, o STF fará muito mal ao povo brasileiro, permitindo que profissionais medíocres prestem serviço à sociedade.

 Sei que o diploma não é garantia de um bom trabalho, mas é no banco acadêmico que se aprendem as técnicas de redação, os princípios éticos da profissão, se estuda a cultura de massa, as novas tecnologias da informação, se reflete sobre a democratização da informação e outros aspectos que, certamente, quem um belo dia acordar e decidir se tornar “Jornalista” não saberá.

 O talento e a experiência são importantíssimos, mas a formação acadêmica merece igual destaque.

 Em vez de propor um recurso absurdo desse, não seria melhor haver um controle de qualidade mais rigoroso dos cursos de jornalismo no Brasil? Que tal criar um conselho nacional dos jornalistas, um órgão responsável pela fiscalização da profissão e que criasse normas para a atividade jornalística no Brasil, nos moldes, por exemplo, da OAB e do CFM (Conselho Federal de Medicina) para garantir um nível elevado de qualidade ao jornalismo brasileiro?

 Desregulamentar a profissão de jornalista é preguiça das autoridades de pensarem em soluções mais eficazes.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

A Imparcialidade não existe


Contar a história, traduzir a realidade, formar opiniões, narrar fatos, descrevê-los, investigá-los, discuti-los, questioná-los. O jornalismo é fascinante. Intriga, desafia, alucina, emociona, vicia. Nos faz rir, chorar, odiar, transpirar. Realmente é o quarto poder. Pode ser usado para o bem e para o mal. Pode ser bem e mal feito. O jornalismo informa, denuncia, entretém.
Será que existe imparcialidade no jornalismo? É uma das questões que nos vêm à cabeça. No primeiro ano de faculdade eu perguntava e ao mesmo tempo respondia sobre o tipo de profissional que almejava ser. Defendia com unhas e dentes a ética nessa nobre profissão. Queria ser uma jornalista comprometida com a verdade e a isenção.
Nas aulas de filosofia, quanta decepção. Quando o professor disse que a verdade não existia e que tudo o que pensamos, falamos, escrevemos é um ponto de vista, levei um susto. Para o filósofo alemão Nietzsche a verdade não pode ser definida porque não se pode alcançar uma certeza sobre isso, logo, é um ponto de vista.
A verdade dependeria de um contrato social. A grosso modo, é como se a sociedade combinasse o que seria verdadeiro ou falso, ético ou não, bom ou mau. Algo arbitrário. Por exemplo: vamos chamar esse objeto cilíndrico de madeira que tem grafite no seu interior e serve para escrever, de lápis. Então está combinado, se a pessoa apontá-lo como lápis será verdade. Se disser caneta, será falso. Da mesma forma, funcionará com os fatos e tudo o que pensarmos e escrevermos.
E se uma pessoa jurasse falar a verdade enquanto concede uma entrevista, mas estivesse mentindo? Nem o repórter, nem o leitor saberiam. Se somente ela soubesse do fato e falasse algo inverídico, certamente a versão daquela pessoa seria publicada. Então, o compromisso não é com a verdade. Que coisa esquisita... E constante no jornalismo.
Muitos jornalistas batem no peito orgulhosos e enchem a boca para dizer que ouvem fontes distintas envolvidas em um mesmo fato e se dizem imparciais. Ledo engano. São apenas diferentes versões, uma sucessão de pontos de vista. É triste. Fui como um desses jornalistas. Acreditei ser diferente. Hoje, estou mais realista.
Podemos buscar uma informação honesta para o público, procurarmos fontes que dêem opiniões diferenciadas sobre um mesmo fato e quem sabe contribuirmos para que o público tire suas próprias conclusões, mas nos julgarmos imparciais, jamais. Por que? Porque os textos são reféns de seus atores. Intencionalmente ou não, o jornalista na apuração, na redação ou na edição de suas matérias, acaba selecionando determinados aspectos em detrimento de outros. Mas por que? Pela criação que recebeu, pela cultura que acumulou, pelas experiências vividas e na maioria das vezes, por ordens de seus superiores.
Infelizmente, o jornalista é aquele que aprendeu a ser ético até o ponto em que a imagem do veículo no qual trabalha não seja prejudicada. Se sair da linha, não se encaixa no perfil da empresa. Ordens são ordens. É, a realidade profissional do jornalista não é glamourosa como muitos imaginam.
Em defesa da parcialidade ouvimos: como arrumar um emprego em meio a um mercado cada vez mais competitivo se não obedecermos à “linha editorial do veículo”? É, parafraseando Fernando Pessoa, o jornalismo não é preciso, mas sobreviver é preciso. Por essa e outras, seria, no mínimo, romântico dizer que a atividade jornalística é pautada pela transparência.
Na realidade o que se vê é um jornalismo que está na corda bamba. Tenta se equilibrar entre o exercício profissional honesto e os interesses comerciais das empresas que chegam a vender suas almas para chamarem a atenção e multiplicarem seus negócios, às custas, sobretudo, da exploração da desgraça alheia por meio da veiculação exagerada de notícias policiais e da invasão da privacidade das pessoas, quer anônimas, quer famosas. Os nossos jornais impressos de cada dia, os noticiários da TV, os programas de rádio, as revistas semanais e os sites de notícias escondem coisas que só os profissionais das redações sabem dizer.



quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

A Ética no Jornalismo

Muito se fala em ética no exercício da prática jornalística. Como fazer um trabalho pautado pelo bom senso e transparência? Essa questão faz parte do nosso dia-a-dia. Seja na apuração, reportagem, edição ou seleção de fatos noticiosos, em algum momento nos vemos questionando a relação do jornalista com a fonte, a informação plantada, o que é preciso saber, publicar ou não. São tantas questões. Mas não há um manual, como o de redação para nos ajudar a como proceder. A ética no jornalismo é construída um dia após o outro. Depende dos fatos, de cada caso e depende de nós, profisisonais.
Não há dúvidas de que ao longo dos anos a imprensa brasileira progrediu bastante. Jornalistas tomaram para si a responsabilidade de primar pela ética, enquanto, esse passo deveria ser dado pelos seus patrões. De todo modo, zelou-se pela prática do bom jornalismo.
É de fundamental importância que os profissionais de imprensa discutam temas como ética e democratização da informação constantemente. Não podemos deixar cair no esquecimento o desejo de tantas pessoas: a liberdade de informação. Há muita coisa a fazer. A concentração da informação nas mãos de uma minoria é preocupante. Devemos arregaçar as mangas e nos esforçar para essa realidade mudar.
O art. 6º do Código de Ética diz que o exercício da profissão do jornalista é uma atividade de natureza social e com finalidade pública. Mas o que vemos hoje é a conduta do jornalista subordinada a interesses das empresas jornalísticas e a dinheiro. O desrespeito ao jornalismo, infelizmente, é algo comum. A mercantilização da notícia, o sensacionalismo desmedido, a corrupção dos valores éticos se tornaram práticas corriqueiras. Nós, jornalistas, não podemos concordar com essa farsa. Chega de discursos baratos. Não basta debates calorosos. É preciso mudança. A começar pela mentalidade de nossos profissionais do jornalismo, seguindo pelos veículos de comunicação aos nossos governantes.
A informação como um bem público é vital à democracia e deve ser respeitada. "A democracia se apresenta como um critério ético fundamental para a comunicação na medida em que fornece condições de sermos todos iguais em direitos, deveres e dignidade; sem ela, mergulhamos no arbítrio, na barbárie, no pântano dos privilégios e da corrupção. "
Então, mãos à obra!!!!!!!!! Que nossaas redações e mentalidades sejam contaminadas pela ética!